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A Itália não faz vinho. A Itália faz vinhos.

  • há 3 dias
  • 11 min de leitura


Vou começar com uma confissão: desconfio de rankings de "melhor país do vinho". Esse tipo de disputa costuma terminar em discussão de mesa de bar, sem vencedor. Mas se alguém me obrigasse a escolher um único país para beber pelo resto da vida, eu não hesitaria. Não por causa de rótulos de dois mil reais — pelo contrário. A Itália é o único lugar do planeta onde você pode beber um vinho diferente toda semana, durante um ano inteiro, e ainda morrer sem conhecer nem um terço das uvas que ela cultiva.

Os gregos já tinham sacado isso quando chegaram de barco, séculos antes de Cristo, e batizaram a península de Enotria, a terra do vinho. Etruscos e romanos transformaram a colheita em cultura, e Plínio, o Velho, escrevia sobre certos vinhos com o mesmo cuidado com que outros descreviam obras de arte. Dois mil anos depois, o país segue firme no topo: em 2025, produziu 47,4 milhões de hectolitros, reconquistou o posto de maior produtor do mundo — deixando França (37,4 milhões) e Espanha (36,8 milhões) para trás — e ainda cresceu 7,5% num ano em que quase todo mundo encolheu. Os números são da OIV, e contam só metade da história. A outra metade está dentro da garrafa.



O mapa que todo rótulo carrega

Antes de viajar pelas regiões, vale decifrar as siglas que aparecem em qualquer garrafa italiana. Desde 1963, o país organiza seus vinhos numa pirâmide: no topo, a DOCG, com pouco menos de 80 denominações que exigem análise química e degustação cega antes de engarrafar — é onde vivem Barolo, Brunello e Franciacorta. No meio, a DOC, mais de 300 zonas com regras de uvas e produção definidas por lei. Abaixo, a IGT, indicações regionais mais flexíveis. E na base, o humilde Vino da Tavola, sem nenhuma indicação geográfica.

O detalhe que torna o sistema humano é que ele é injusto. Alguns dos vinhos mais caros e cultuados do país nasceram justamente fora da DOC — como meros "vinhos de mesa". O Sassicaia, hoje um ícone mundial, era um Vino da Tavola quando apareceu na década de 1970, porque ousou usar Cabernet Sauvignon onde a lei só queria Sangiovese. Ou seja: a regra existe para organizar, não para prender. E foi bom que não tenha prendido.

Piemonte, onde o Barolo manda

O Piemonte é o ponto de partida obrigatório. No noroeste, aos pés dos Alpes, as manhãs de outono amanhecem cobertas por uma neblina que os italianos chamam de nebbia. Foi essa neblina que batizou a uva mais famosa da região, a Nebbiolo, uma tinta tardia que amadurece só no fim de outubro e exige colinas ensolaradas e solos bem drenados. Ela não é fácil: cor pálida, taninos firmes, aromas de rosas, alcatrão e trufa. Mas quando acerta, acerta por décadas.

Dela nascem dois monumentos. O Barolo, apelidado de "rei dos vinhos, vinho dos reis", envelhece no mínimo 38 meses, com 18 em madeira (62 no Riserva). O Barbaresco, vizinho mais gentil, pede 26 meses. A diferença vai além da lei: o Barolo vem de solos variados — calcário e argila em La Morra, areia e terra mais fértil em Serralunga d'Alba — e entrega estrutura e potência; o Barbaresco, da margem do rio Tanaro, é elegância que chega mais cedo. Desde 2010, os produtores podem estampar a MGA, uma espécie de cru oficial com mais de 170 vinhedos reconhecidos — a Borgonha finalmente encontrou um primo italiano.

E existe uma briga histórica que deixa tudo mais divertido. De um lado, os tradicionalistas como Bartolo Mascarello e Giacomo Conterno, fiéis aos cascos gigantes de madeira de 5 mil litros. Do outro, os Barolo Boys, a turma que nos anos 1980 importou barricas pequenas de carvalho francês para domar os taninos e encurtar a espera. Bartolo chegou a estampar no próprio rótulo um recado contra as barricas novas e as uvas internacionais. Hoje os dois caminhos convivem — e o mercado agradece.

O Piemonte, claro, não é só Nebbiolo. A Barbera, de acidez vibrante e taninos macios, é o tinto de mesa mais charmoso da região, principalmente nas versões d'Alba, d'Asti e na exuberante Nizza. O Dolcetto é o tinto fácil da semana. Nas brancas, o Gavi (uva Cortese) entrega mineralidade discreta, e o Roero Arneis — do qual eu tenho um fraco pessoal — é floral, levemente amendoado, e passou décadas esquecido antes de virar moda entre os sommeliers.

Toscana, a alma que se veste de vermelho

Se o Piemonte é a nobreza, a Toscana é o coração. É a terra da Sangiovese, a uva que vestiu de vermelho as colinas entre Florença e Siena. Ela é caprichosa: sensível ao solo, à exposição, ao manejo. Tem clones com personalidade própria — o Sangioveto no Chianti, o Prugnolo Gentile em Montepulciano, o Brunello em Montalcino. Por isso tantos produtores brigam com ela. E por isso, quando ela se entrega, o resultado é inesquecível.

O Chianti Classico, com seu selo do Gallo Nero, foi delimitado oficialmente em 1716 por decreto do grão-duque da Toscana — um dos primeiros zoneamentos vinícolas do mundo. Hoje exige no mínimo 80% de Sangiovese e tem três níveis: o Classico, o Riserva (24 meses) e o Gran Selezione (30 meses), categoria criada em 2014 para coroar os melhores vinhedos. Acima de tudo isso, paira o Brunello di Montalcino: 100% Sangiovese, cinco anos de envelhecimento, dois deles em madeira. Montalcino é uma montanha seca cercada de oliveiras, e seu microclima concentra a fruta de um jeito que poucos lugares do mundo conseguem. Foi o vinho que consagrou a família Biondi-Santi no fim do século XIX — e as safras antigas deles estão entre as mais caras do planeta.

A Toscana também guarda a história mais ousada do vinho italiano: os Super Tuscans. Nos anos 1960 e 1970, Mario Incisa della Rocchetta e Piero Antinori decidiram fazer vinho do jeito deles — Cabernet Sauvignon, barricas francesas, Sangiovese "fora da lei" — fora das regras da DOC. O Sassicaia (primeira safra em 1968, hoje com DOC própria, a primeira do mundo dedicada a uma única vinícola) e o Tignanello (1971, o primeiro Sangiovese envelhecido em barrique, sem uvas brancas no corte) viraram lendas e provaram que a Itália sabia conversar com Bordeaux sem perder o sotaque.

Vêneto, o império do equilíbrio

O Vêneto é a região que faz a Itália brilhar em quantidade e qualidade ao mesmo tempo, e construiu sua fama em torno de uma técnica única: o appassimento, a secagem das uvas antes da fermentação. Uvas de Corvina, Rondinella e cia. passam três a quatro meses em salas ventiladas — os fruttaio — sobre esteiras, perdendo água e ganhando concentração. A lenda diz que o Amarone nasceu de um acidente: um barril de Recioto (o doce da família) foi esquecido, fermentou até o fim, e o resultado seco acabou sendo melhor que o original.

Dessa técnica nasce uma família completa: o Valpolicella Classico, leve e frutado; o Ripasso, que faz uma segunda fermentação sobre as cascas usadas do Amarone — um truque de camponês que transfere corpo e especiarias ao vinho básico; e o gigante Amarone della Valpolicella, com uvas desidratadas, fermentação lenta e no mínimo dois anos de envelhecimento. É um tinto potente, aveludado, com notas de figo, cacau e cereja preta. Um dos maiores do mundo — e o mais "italiano" deles, se é que isso faz sentido.

O Vêneto também prova que branco pode envelhecer. O Soave, feito de Garganega nos solos vulcânicos de Monteforte d'Alpone, desenvolve com os anos notas de mel, nozes e frutas brancas, com uma tensão mineral que lembra os grandes brancos europeus. E o Prosecco — o queridinho dos brindes — merece seção própria mais adiante.

O resto do mapa, em ritmo mais rápido

A Itália não cabe em três regiões, e é isso que a torna fascinante. Na Lombardia, a Franciacorta faz o espumante mais elegante do país, e a Valtellina cultiva Nebbiolo (chamada ali de Chiavennasca) em terraços de pedra seca que sobem 700 metros de desnível — paisagem de outro tempo, de onde sai também o Sforzato, um Nebbiolo passificado e seco. No Trentino-Alto Adige, a fronteira com a Áustria rende alguns dos brancos mais emocionantes do país: o Gewürztraminer de Termeno (a cidade que deu nome à uva), um Pinot Grigio que nada tem a ver com a versão insípida que dominou o mundo, e um Lagrein escuro e aveludado.

Na Emilia-Romagna, reina o Lambrusco — o espumante tinto que os italianos bebem com salame e tagliatelle, hoje redescoberto em versões secas de vinhas velhas. A Umbria guarda o Sagrantino di Montefalco, um dos tintos mais tânicos do planeta. As Marche têm o Verdicchio dei Castelli di Jesi, o branco italiano que melhor envelhece, com mineralidade de Chablis. O Abruzzo é a terra do Montepulciano d'Abruzzo, generoso e macio. Na Campânia, berço da viticultura grega na Itália, o Aglianico vira o Taurasi, o tal "Barolo do Sul" — e as brancas Fiano, Greco e Falanghina são joias antigas que ainda surpreendem.

A Puglia, no calcanhar da bota, é puro sol: o Primitivo (que é geneticamente o mesmo Zinfandel da Califórnia e o Crljenak da Croácia) explode em fruta madura, e o Negroamaro dá personalidade aos tintos e rosés de Salento. A Sicília vive o capítulo mais fascinante do vinho italiano contemporâneo: no Etna, vinhas plantadas em encostas de lava até mil metros de altitude — algumas com mais de cem anos, sobreviventes da filoxera — produzem com Nerello Mascalese tintos de elegância borgonhesa e com Carricante brancos de altitude com acidez cítrica e longevidade. É um dos terroirs mais hipnotizantes da Europa, e ponto. A Sardenha responde com o Cannonau (a mesma Grenache), o Vermentino di Gallura e o Carignano del Sulcis, cultivado em areias de praia.

As uvas, sem burocracia

Se você juntar tudo isso, entende por que a Itália não tem "a uva": ela tem um exército. Mais de 500 variedades nativas — o maior patrimônio genético vitícola do mundo. Entre as tintas, além das já citadas, vale gravar na memória: Barbera (a mais bebível do Piemonte), Montepulciano (encorpada e macia), Aglianico (a "Nebbiolo do Sul", potente e de guarda), Primitivo (fruta madura e álcool generoso), Corvina (a alma da Valpolicella), Nero d'Avola (o rosto ensolarado da Sicília) e Frappato, Cannonau, Lagrein, Dolcetto e Schiava — cada uma com sua região e seu culto.

Entre as brancas: Garganega (a alma do Soave), Verdicchio (mineral e longeva), Vermentino (fresca e salina, rainha do litoral), Fiano, Greco e Falanghina (as nobres antigas da Campânia), Carricante e Grillo (a face branca da Sicília), Cortese e Arneis (as elegantes do Piemonte), Ribolla Gialla e Friulano (as protagonistas de Friuli, lar da moda dos orange wines) e Moscato e Malvasia, que alimentam os grandes doces. O Pinot Grigio é a uva italiana mais famosa do mundo — pena que o mundo beba a versão mais chata dela; na Itália, no Alto Adige e em Friuli, ela mostra o que sabe.

Métodos: o italiano é artesão

O que separa o vinho italiano do resto não é só a uva, é a técnica. O appassimento já foi apresentado — é a assinatura do Vêneto. O governo all'uso toscano era o truque do Chianti clássico: mosto de uvas parcialmente secas adicionado depois da fermentação principal, provocando uma segunda fermentação que suavizava taninos. Poucos ainda praticam, mas faz parte da história viva. O Vin Santo nasce nas adegas toscanas: cachos inteiros descansam em esteiras de palha por meses, e as uvas passificadas fermentam lentamente em caratelli, barris minúsculos de até 225 litros vedados com o sistema colmatura, que completa o volume com vinhos de anos anteriores. O resultado envelhece quatro, dez, vinte anos em contato com o ar: âmbar, de nozes, damasco e mel.

Nos espumantes, a Itália domina os dois caminhos do mundo: a segunda fermentação em garrafa — como no champanhe, com remuage, dégorgement e dosage — e o método Charmat, de fermentação em grandes tanques, inventado pelo italiano Federico Martinotti em 1895. A garrafa entrega borbulha fina, pão e brioche; o tanque preserva fruta e frescor. E a Itália usa cada um onde rende melhor. Há ainda o Col Fondo, o Prosecco ancestral refermentado na própria garrafa e vendido com as leveduras dentro — turvo, vivo, de borbulha selvagem, que vive um revival entre os entusiastas. E os orange wines de Friuli, com maceração de uvas brancas em ânforas de terracota, como fazem Josko Gravner e Radikon — uma prática de milhares de anos redescoberta.

Sobre madeira: o país vive um diálogo eterno entre os botti grandi, cascos enormes de 3 a 10 mil litros que oxigenam sem emprestar sabor, e as barricas de 225 litros que dominaram os anos 1980. O aço guarda frescor nos brancos; o concreto e a ânfora aparecem quando o produtor quer neutralidade com micro-oxigenação. Nada disso é moda. É o italiano escolhendo a ferramenta certa para cada uva.

Os espumantes: o brinde também é patrimônio

Se a França tem o champanhe, a Itália tem o leque mais democrático de borbulhas do mundo. O Prosecco, feito de Glera (mínimo 85%) pelo método Charmat, conquistou o planeta por uma razão simples: frescor, fruta e leveza a preço honesto. Mas existe hierarquia: o Prosecco DOC é o básico; o Conegliano Valdobbiadene Prosecco Superiore DOCG, das colinas íngremes de 15 comunas, é outra coisa — floral, fino, com tensão. Dentro dele moram o Cartizze, um cru de apenas 107 hectares, e os Rive, espumantes de vinhedo único. As versões Extra Brut e Col Fondo provam que o Prosecco pode ser sério, não só festivo.

A Franciacorta, entre Brescia e o lago de Iseo, é o grande espumante de método clássico italiano: Chardonnay, Pinot Nero e Pinot Bianco, no mínimo 18 meses sobre as borras (30 no Millesimato, 60 no Riserva). O Satèn é a especialidade local — um blanc de blancs de pressão mais baixa, cremoso, feito para o brinde silencioso. Há quem diga que é o champanhe italiano; os produtores preferem dizer que é simplesmente um dos grandes espumantes do mundo. E há ainda o Trento DOC, fermentado em garrafa nas altitudes alpinas, e a Alta Langa, no Piemonte, a novidade chique com Chardonnay e Pinot Nero das colinas langarolas. Sem esquecer do Moscato d'Asti — mas ele fica para a seção do doce.

Os doces: o final que merece o país

A Itália produz alguns dos vinhos de sobremesa mais cultuados do planeta, e quase todos nascem da mesma ideia: concentrar uvas, parar a fermentação cedo ou oxidar devagar. O Vin Santo da Toscana já foi apresentado — com pecorino e cantuccini, é uma instituição. O Moscato d'Asti, fermentado em tanque fechado e parado cedo, aos 5% de álcool, é doce, aromático e borbulhante como um sorriso — o doce que não cansa. O Recioto della Valpolicella, primo doce do Amarone, interrompe a fermentação para manter o açúcar: frutas vermelhas em compota, chocolate, especiarias. E há o raro Recioto di Soave, doce de Garganega com damasco e mel.

A Sicília responde com o Passito di Pantelleria — Moscato de Alexandria seco ao sol sobre esteiras de pedra, com laranja cristalizada, damasco e acidez que o mantém vivo por décadas. As ilhas são uma fábrica de raridades: a Malvasia delle Lipari, o Sciacchetrà das Cinque Terre, feito em quantidades minúsculas em terraços sobre o mar, o Aleatico de Elba. Friuli e Vêneto têm o Picolit, uva de produção baixíssima que era o vinho dos papas e imperadores, e o Torcolato de Breganze. A Umbria seca seu Sagrantino para um doce de taninos inusitados. E não custa lembrar do Marsala: não é bem um vinho de sobremesa, mas o fortificado siciliano criado no século XVIII pelo inglês John Woodhouse para sobreviver à travessia marítima vive um revival nas versões secas envelhecidas em solera.

O presente e o futuro

Os números recentes contam uma história de afirmação. Em 2025, a Itália confirmou a liderança mundial na produção — mas o mercado já não se mede só em litros. As exportações somaram 7,8 bilhões de euros, com espumantes e vinhos de denominação puxando o valor para cima, num movimento claro de premiumização. No Brasil, o principal mercado da América Latina, as importações cresceram cerca de 7% em 2025, chegando a aproximadamente R$ 246 milhões — e os italianos querem mais, como ficou claro no evento I Love Italian Wines, que levou mais de 500 rótulos a São Paulo.

O futuro se desenha em três frentes. A primeira é a altitude: com o clima mais quente, os produtores sobem — o Etna e os Alpes ganham protagonismo, e os vinhos de montanha viram tendência. A segunda é a sustentabilidade: a Itália lidera a Europa em área de vinhedo orgânico, e a geração que herdou as adegas dos pais aposta em vinhas velhas e baixas intervenções. A terceira é a autenticidade: num mundo de rótulos padronizados, o vinho italiano se vende pela diferença — centenas de uvas que ninguém mais cultiva, técnicas que nenhum outro país domina e histórias que só existem naquela colina específica, naquela ilha, naquele terraço sobre o mar.

No fim, é isso que o vinho italiano ensina: diversidade não é defeito, é patrimônio. E o prazer está em explorar — uma garrafa de cada vez.

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